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quarta-feira, 2 de março de 2011

Capítulo 9 - ~* Apenas Juntos *~

Capítulo 9 – Ano-Novo.

Fui dormir tranquilamente, imaginando o quanto seria diferente essas férias e ingenuamente acreditando que acordaria de uma forma graciosa e tranquila, sem nenhuma intromissão de pessoas indesejáveis. Quão ingênua eu fui. Em que mundo de fantasia eu teria uma noite completamente calma dentro do hospício que eu chamo de “casa”. Nenhuma possibilidade.

- Nossa, cara! Olha o lago de baba que ela fez no travesseiro. – disse uma voz conhecida.

- Não fale assim, Ransho. Nee-sama fica linda até dormindo. – disse uma outra voz conhecida.

Abri vagarosamente os olhos e havia dois rostos bem próximos ao meu, encarando-me. Eram Ransho e Motoko.

- Por que diabos vocês estão aqui? Uma pessoa normal não pode dormir em paz uma vez na vida?

- Claro que sim. Mas você não é uma pessoa normal. Muito menos nós. Então você não tem direito de dormir em paz. Pelo menos aqui em casa. – disse Ransho, sorrindo marotamente. 

Suspirei, sentando-me na cama.

- Na verdade, viemos te acordar para ir tomar o café da manhã. Todos já estão acordados e com fome. Mas mamãe não deixa ninguém comer até todos estiverem juntos. Então nos encarregamos de acordar você, nee-sama. – falou Motoko. – Não imaginava que você fosse tão dorminhoca...

- Ah, já é essa hora? – falei, olhando para o relógio de parede do quarto. – Vou apenas trocar de roupa. Podem ir descendo e digam que já estou indo.

Ransho e Motoko saíram do quarto e escutei seus passos sumir escada a baixo. Levantei-me, ainda sonolenta. Tirei meu pijama, e coloquei uma roupa. Desci as escadas, e entrei  na sala onde todos estavam sentados numa mesa farta de comida e com vários rostos irritados de fome.

- Bom dia, família. – falei a todos, com certo constrangimento no sorriso.

- Bom dia, filha! Agora sim, vocês podem comer. – falou minha mãe.

Todos começaram a se servir, após um alto e sonoro “Itadakimasu!”. Como uma boa anfitriã e uma impecável dona-de-casa, minha mãe caprichou em toda a comida, sem dar um motivo para reclamações. Após todos se servirem e ficarem satisfeitos, levantaram-se, cada qual indo para um lado da casa.

Como era dia 31, a família estava eufórica pela festa de Ano-Novo. Todos deviam ajudar para tornar a passagem do ano a mais agradável possível. Com certeza seriam três longos dias de comida, diversão e mochis. Logo após o café-da-manhã, minha mãe mandou eu e Kakyou irmos na mercearia comprar ingredientes para o grande banquete que ela prepararia para o jantar daquele dia. Pegamos os casacos e calçamos os sapatos, saímos para o dia nebuloso que estava. O frio entrava pelas minhas narinas, e era possível ver minha respiração. As pessoas deviam estar muito ocupadas com a festa, pois não se via muitas pessoas pela rua. Ao chegarmos à mercearia, tirei da bolsa a lista que minha mãe havia feito e vagamos pela mercearia, procurando os vários ingredientes. Durante o caminho de volta, perguntei a ele como havia sido sua noite. Ele respondeu:

- Foi calma. Dormi bem.

- Estranhou o frio? – perguntei.

- Na verdade, não. Achei uma noite bem agradável até. – respondeu vagamente.

- Sério? Achei bem fria. Desacostumei co o frio demasiado daqui. – falei rindo de mim mesma.

- Sou menos fresco que você. – falou convencido.

- Ah é, senhor “sou demais”? Que horas você acordou, então?

- Às seis. – falou simplesmente, então sorriu.

- Como assim? Por que você acordou tão cedo? – perguntei surpresa.

- Fui obrigado. Acordei com Ransho no meu quarto, com uma lata de chantilly na mão. Provavelmente para me pregar uma peça.

-Sinto muito por você. - falei rindo. – Não imaginava que ele faria isso com você também.

- Também?

- O primeiro Ano-Novo que Yuki passou conosco foi assim. Mas ele não foi tão esperto quanto você. 
Acordou com o rosto cheio de chantilly. – respondi, relembrando.

Continuamos nossa caminhada para casa, conversando. Quando chegamos na rua de casa, encontramos uma antiga amiga dos tempos do colegial. Seu nome era .... Ela era uma garota miúda com cabelos acima dos ombros. Muito tímida e reservada. Fazia um bom tempo que eu não a via.

- Olá, Amamiya-san. Não sabia que havia voltado. Veio apenas para o feriado?

- Sim, Chieko-san. Dia três já estarei voltando. – respondi. – Ah, sim. Esse é um amigo meu, Shizuka Kakyou.

Chieko olhou para ele, parecendo só ter percebido a presença dele naquele momento. Observou primeiramente o rosto, e depois o olhou de baixo a cima. Seu rosto se iluminando a cada centímetro que seus olhos perpassavam pelo rosto e corpo de Kakyou. Mirou seus olhos novamente para o rosto dele.

- Muito prazer, Chieko-san. – falou ele, polidamente.

Os olhos dela brilharam por um segundo e um singelo sorriso se abriu no rosto dela.

- O prazer é meu, Shizuka-san.

- Bem... Temos que ir, Chieko-san. Preparativos para o Ano-Novo. Mamãe está querendo fazer um banquete gigantesco. - falei, disfarçando um sorriso. 

Seu sorriso desapareceu. Parecia pensar em algo. No fim, se chegou a uma conclusão, não expôs. Apenas se despediu e apressadamente seguiu seu caminho.

Continuamos andando até a entrada de casa. Desviei meus olhos com um profundo desagrado, fazendo-me perder todo o espírito de festa. Observei a expressão de Kakyou. Não parecia diferente de antes. Mas duvidava de que ele não tivesse percebido o que eu havia. 

- Pensando bem... Kakyou é um rapaz bonito. Deve passar muitas vezes por isto. Talvez ele houvesse aprendido com o tempo a ignorar. Apenas mais uma garota que parecia interessada por ele. Para ele, não deve nem ao menos importar. - pensei. 

Suspirei, cabisbaixa. Por algum motivo, eu me sentia chateada com isso. Tanto com o fato de uma garota gostar dele quanto com ele não se importar com qualquer garota que se interesse por ele. 

- Tadaima... - falei ao entrar em casa. 

Dirigi-me a cozinha com as compras, sendo seguida por Kakyou. Encontrei uma Motoko lacrimosa junto às cebolas e mamãe administrando várias panelas no fogão. 

- O que eu faço, mãe? - perguntei, sentando-me. 

- <....>, querida. Por favor, corte os legumes com sua irmã. 

Comecei a revirar gavetas sem prestar muita atenção, sem êxito em achar as facas.

- Mãe, cadê as facas?

Minha mãe me olhou surpresa e falou:

- Estão aqui. - e apontou para a gaveta ao lado da pia. 

Abri e peguei uma faca. 

- A senhora mudou-as de lugar?

- Não. Elas ficam aí desde... Sempre. Não é costume seu esquecer onde fica as coisas na cozinha. 

Corei um pouco e percebi um certo bater de dedos na mesa da cozinha característicos de Kakyou. 

- Ah, sim. Estou distraída hoje. 

- Tudo bem. Se puder cortar os  legumes sem perde um dedo já é o suficiente. - falou minha mãe, rindo. 

Comecei a cortar os legumes, ainda distraída. Dei algumas olhadas de esguelha para Kakyou. Senti que ele estava aborrecido, mesmo que não não transparecesse. Por muitas vezes, quase cortei meu dedo, mas logo consegui terminar essa tarefa ilesa. 

Em seguida, fiz alguns mochis com Kakyou. Sorri ao perceber que ele não era muito habilidoso com as mãos. Não conseguia de jeito nenhum deixar o mochi na forma ideal. Após acabarmos, minha mãe nos expulsou da cozinha para nos arrumarmos. Subimos as escadas em silêncio. Ao pisarmos no segundo andar, Kakyou abriu a boca para falar algo:

- <....>...

Mas eu nunca soube o que ele ia falar. No momento em que ele pronunciou meu nome, Motoko apareceu atrás de nós, agarrou meu braço e me puxou dizendo algo sobre querer que eu a ajude com a roupa. Olhei para trás e vi Kakyou com um leve sorriso, não tão feliz mas não exatamente triste. Parecia... hesitante. 

Quando pude perceber já estava arrumada e, por algum motivo, meu cabelo estava amarrado em uma longa trança e Motoko estava passando um pincel no meu rosto. Fiquei tão distraída que Motoko se aproveitou para abusar do meu corpo. Sintia minha cabeça pesar agora apenas com aquela fina camada de maquiagem e me sentia extremamente desconfortável com a pesada trança que balançava a cada passou que eu dava. 

Desci as escadas com um breve desânimo criado pelos longos acontecimentos daquele dia. Apenas minha mãe estava lá embaixo, dando os último retoques na comida. Sentei-me e fiquei observando ela caminhando pela cozinha. Então virou-se para mim:

- Ah, querida. Não havia percebido você aqui. Está tudo bem com você, minha filha?

- Eu acho que sim. Não sei... É apenas uma sensação estranha. Não estou entendendo o por quê disso. Eu... - suspirei.

Minha mãe não respondeu de imediato, apenas me observou. Então sorriu, como se tivesse entendido tudo aquilo que me atormentava naquele momento. O instinto de mãe infalível... Abraçou-me ternamente e disse apenas:

- Está tudo bem. Não precisa  se preocupar. Apenas busque seus objetivos sem olhar para trás. Não importa o que seja. Ou quem seja...

Nesse momento, ouviu-se um passo entrando na cozinha. Olhei para a porta e vi Kakyou.

- Desculpe-me. Atrapalhei algum momento importante? - sorriu.

Algo estalou dentro de mim. Agora eu entendia. Era ele. Apenas ele. Eu sentia um carinho especial por ele. Eu gostava dele, eu estava apaixonada por ele. Eu não conseguia lidar com a ausência dele, eu não aguentava imaginar ele com outra pessoa. Eu amava aquele sorriso, eu queria saber mais sobre ele, não queria vê-lo preocupado ou triste. Ele já era muito importante.

Mesmo sem saber dos próprios sentimentos dele, meu corpo foi se enchendo de felicidade. Como se derretesse todas as minhas preocupações, me senti mais leve. Eu tinha uma vontade se sorrir, de pular e principalmente, uma vontade de pular em cima de Kakyou, dizer que o amava, queria novamente estar prestes a beijá-lo. Mas agora sabendo por que desejava isso.

- Não, Kakyou. Estava apenas conversando com minha mãe. Coisa de mãe e filha. - falei, alegre novamente.

Ele arregalou levemente os olhos e sorriu, afinando os olhos.

- Nossa. Interrompi uma coisa tão séria assim. <....> está crescendo, mas ainda quer o colo da mãe. - falou, rindo levemente.

- Hey! Não é assim. - sorri. - Idiota.

- Parem de brigar e vamos lá para fora. Temos que levar as comidas.

Pegamos algumas travessas e panelas de comida. Levamos-as ao quintal onde ocorreria a festa. Assim que terminamos de trazer toda a comida, todos apareceram para o jantar.

A noite foi recheada de conversas entusiasmadas, risadas e piadas de Ransho. Até meu pai parecia menos ranzinza. A comida estava excelente, como previsto. E após a comida, meus pais subiram para dormir. Enquanto o resto de nós, permanecemos conversando durante a noite inteira, com alguns bocejos ocasionais.  Com a aproximação do nascer do sol, subimos no telhado e sentamos para esperar os primeiros raios de sol do ano. E eles chegaram de forma graciosa.

- Vai ser um ótimo ano... - falei baixo, institivamente.

- Com certeza... - respondeu Kakyou.

Virei-me para Kakyou. Ele sorria. Sorri como resposta. Enquanto meus irmãos, já iam descendo o telhado e só permaneceu eu e Kakyou lá, ele pôs uma das mãos no meu rosto singelamente e deu um leve beijo na minha testa.

- Feliz Ano-Novo... - disse, com seus lábios ainda próximos de minha testa.

Se o ano fosse tão bom quanto foi o início, eu não precisava ter medo de nada. Afinal... Estava tudo bem.

~*

Vocabulário
Nee-sama - Pelo pé da letra... "Irmã".
Itadakimasu - Expressão dita antes das refeições.
Mochi - Bolinho doce feito de arroz socado no pilão. Tradicionalmente comido no Ano-Novo. 
Estranhou o frio? - Se vocês voltarem alguns capítulos, vão descobrir que a casa dos pais de <....> moram em Sapporo. Sapporo é a capital da província de Hokkaido. É a ilha mais ao norte do Japão, consequentemente a mais fria.
-san - Pronome de tratamento utilizado como sufixo. Equivalente ao senhor/senhora/senhorita.
Tadaima - Expressão usada quando se chega em casa. Equivalente a "Cheguei!". 




Finalmente eu consegui. Não tenho muita coisa para escrever. Só espero que leiam e gostem. Desculpe-me pela demora. 


Até o próximo post! (:

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

~* Apenas Juntos *~, um ano. ♥ ~


Olá, passarinhos cantantes!
Hoje venho aqui com um post para comemorar o um ano em que eu escrevo meu primeiro romance sério: Apenas Juntos.

Há um ano atrás, eu me sentia agoniada. Eu observava o blog e observava. Faltava algo. Eu queria mudá-lo e melhorá-lo, trazer algo diferente para o blog que tornasse mais acompanhável. Então decidi escrever um texto, sem compromisso, sem esperar algo realmente. E, sinceramente, o primeiro capítulo não foi aquelas coisas, né? Mas eu gostei. Eu gostei de escrever.

O tempo foi passando e eu continuava escrevendo novos capítulos. Com isso, eles ficaram cada vez maiores e melhores escritos. Eu passei a prestar mais atenção às regras gramaticais, consegui detalhar ambientes e sentimentos, além de formar diálogos mais lógicos.

Além disso, consegui criar um clímax. Fiz problemas e conflitos, e muitas outras situações que, com certeza, irão deixá-los surpresos. Também estou orgulhosa de conseguir incluir novos personagens com seus próprios conflitos.

Eu, sinceramente, me apeguei aos personagens. No começo, eu sentia que cada personagem era baseado em algum personagem de anime. Por exemplo, Kakyou com o Kureno de Fruits Basket, Aiko com a Mei de Ouran, <....> com a Uotani de Fruits Basket e Yuki com o Fujimoto de Kobato. Mas hoje, eles são personagens independentes. São os meus personagens. Eu os criei. E não existe orgulho maior do que ter algo que você mesmo criou. Eu amo meus personagens e cada um é como uma parte de mim. Uma sombra de minha personalidade. É como se eu os conhecesse, como se fosse amigos ou até filhos. Cada um deles são meus filhos e como qualquer mãe, fico orgulhosa de poder vê-los crescer e aprender a lutar por seus objetivos.

Estou ansiosa para conhecê-los melhor. E vocês, leitores, espero que estejam tanto quanto eu.

Agradecimentos especiais à minha mãe e meu pai que sempre me apoiaram quanto a minha ambição de ser escritora, à Gabriela que, apesar de tudo, sempre apoiou Apenas Juntos, ao Magi que sempre ajudou no encaminhar do blog, à Yuu-chan que desde sempre está cobrando novos capítulos e fez o favor de fazer a capa e cuidar do visual do blog, a Mariana, minha professora do curso de Redação da Unb, que está corrigindo os capítulos e, é claro, a todos aqueles que lêem o blog e Apenas Juntos.

Obrigada por tudo, pessoal. O blog e Apenas Juntos só existe por causa de vocês.

Até o próximo post! (:

domingo, 2 de janeiro de 2011

Capa de ~* Apenas Juntos *~

Olá, passarinhos. :3 
Vim aqui para trazer a capa. Sim, a capa de Apenas Juntos. Improvisada pela minha doce amiga Yuu-chan. *-* 
Amo ela. Beijos. :* 
Aqui vai... 

Bonita, né? Pois é, gente. Só isso por enquanto. Logo, logo trago um post sobre a Maaya. 

Até o próximo post! (: 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Capítulo 8 - ~*Apenas Juntos*~

Capítulo 8 - Primeira impressão

Na manhã de 30 de dezembro, eu estava em meu quarto preparando-me para a viagem. Até que duas batidas na porta, interromperam-me.

- Está pronta? - perguntou Kakyou com um tom impaciente.

- Sim, já estou indo. - respondi e olhei uma última vez meu reflexo no espelho.

Peguei minha mala de mão e saí do quarto, de encontro com Kakyou.

- Pegou tudo? - perguntou, um pouco angustiado.

Confirmei com a cabeça.

- As passagens também?

- Claro. Elas estão bem aqui. - abri minha pequena mala de mão para pegá-las.- Opa...

- "Opa"? O que houve? - falou Kakyou exasperado.

- Estou brincando... - respondi rindo. -  Está pronto?

- Há mais de uma hora. - falou, arqueando a sobrancelha.

Juntei as malas e conferi se todas estavam lá.

- Mas falta uma hora e meia para o embarque do trem. Estamos bem adiantados. - falei.

- Mesmo assim, não faz mal chegar com uma hora de antecedência.

- E vamos fazer o que até o embarque? Contar quantos trens passam pela estação?

- Melhor do que se atrasar.

Sorri. Não imaginava que Kakyou fosse tão organizado a ponto de ficar desconcertado com a simples possibilidade de atraso.

- Então me ajuda a carregar as malas, estressadinho. - falei, rindo.

Juntamos as malas e saímos para guardá-las no táxi que estava parado ali por um bom tempo com um motorista já adormecido pela demora. Era um dia relativamente agradável com um céu nebuloso e neve cobrindo as ruas, calçadas e tetos das casas. Um clima perfeito para uma viagem de trem.

Na estação, esperamos cerca de 40 minutos até o nosso trem sair para tomar seu destino. Mesmo dentro do trem, o frio permanecia presente e eu tremia pois havia esquecido a jaqueta dentro da mala. Kakyou havia saído para pegar um chocolate na cozinha do trem. Só percebi que ele havia voltado quando senti um peso sobre meus ombros. Ele tinha me dado seu casaco e, em seguida, me entregou o chocolate enquanto se sentava na poltrona do meu lado.

- Viu? É isso que dá se arrumar em cima da hora. - falou.

- Não. É isso que dá ficar me apressando quando eu estava me arrumando. - retruquei e dei um gole no chocolate.

O calor do chocolate desceu pela minha garganta e chegou ao meu estômago, espalhando maciez de seu sabor pelo meu corpo perturbado pelo frio. A viagem se estendeu agradavelmente e, no começo da noite, chegamos na estação. Na saída do trem, já era possível ver um rosto conhecido. Meu irmão mais velho esperava-me no meio da multidão de pessoas sorridentes por reverem familiares e amigos. Ele também sorria.

Nii-san! - gritei para ele.

- <....>! - ele respondeu ao meu chamado, andando apressadamente em minha direção.

Logo que ele estava bem próximo de mim, Kakyou desceu do trem e deu de cara com meu irmão.

- Ah, sim. Rikuo, esse é Kakyou. Ele é um amigo meu.

Rikuo arqueou a sombrancelha. Ele não era muito receptivo quantos pessoas novas, principalmente meus amigos homens. Foi uma luta fazê-lo aceitar Yuki e tenho a impressão de que com o Kakyou será apenas pior. Na realidade, ele era apenas muito protetor. Eu o agradeço muito por isso, mas eu não poderia deixar de sentir pena de Kakyou e Yuki. Mesmo assim, acho que esse tipo de comportamento combina com Rikuo. Até a aparência contribui para isso. Tinha olhos atentos e marcantes, membros sempre rígidos e um rosto que exprimia responsabilidade.

- Muito prazer. Sou Shizuka Kakyou. - fez uma leve reverência. - Estou muito agradecido por poder passar o Ano-Novo com a família de vocês.

- Claro... - respondeu vagamente.

Pegamos a mala e as guardamos no porta-malas do carro de meu irmão. O caminho até a casa de meus pais foi silenciosamente constrangedora. Apenas algumas vezes meu irmão me perguntou sobre a vida na faculdade e sobre Yuki e Aiko, mas em nenhum momento se dirigiu a Kakyou. Enfim chegamos ao nosso destino.

Organizamos-nos para levar as malas até a porta. Quando abrimos a porta e Rikuo começou a falar um "Tadaima", algo veio de encontro a mim. Algo bem pesado.

Onee-sama! - ouvi alguém gritar no meu ouvido.

- Socorro... - falei, enquanto era sufocado pelo abraço de Motoko.

Por ironia do destino, ninguém me socorreu da "psicopata abraçadora". Rikuo continuou retirando os sapatos, enquanto falava:

- Pessoal, <....> chegou!

As pessoas começaram a sair para vir nos recepcionar.

- Motoko! Solte sua irmã! Quer matá-la? Por isso que ela não vem nos visitar.

Motoko me soltou, deixando-me respirar. Não entendo por que tanto ela quanto Aiko têm o costume de me abraçar dessa maneira brusca todas as vezes que me encontram.

- Isso não é verdade, mãe. Você sabe que eu... - comecei a falar.

- Está muito ocupada com a faculdade. - ela completou, esboçando um sorriso brincalhão. - E quem é esse aí que está escondido? Será Nayuki-chan?

Minha mãe se aproximou para vê-lo melhor.

- Nossa, <....>. Quem é esse seu "amigo" tão bonito? - falou minha mãe com os olhos brilhando.

Mamãe era uma senhora baixa e alegre. Tinha os cabelos levemente grisalhos presos num coque mal-feito e usava um avental impecavelmente limpo. Tinha uma mente calculista e vivia me empurrando para homens. Nesse momento, já deveria estar armando um plano para Kakyou e eu.

- Esse é Kakyou. Um amigo. Ele disse que passaria o Ano-Novo sozinho, então pensei em chamá-lo para comemorar conosco.

- Claro, claro. Que notícia maravilhosa! Quanto mais gente, melhor.

- Oh! <....> trouxe o namorado para apresentar a nova família. - falou Ransho, enquanto descia a escada. - Quer uma dica, amigo? Foge, porque essa família é uma loucura só.

Ransho era meu outro irmão mais velho. Ele é o irmão gêmeo mais velho de Rikuo, apenas cinco minutos mais velho. Ransho era idêntico ao Rikuo na aparência, mas a personalidade deles eram extremos opostos. Enquanto Rikuo era o sério e responsável, pode-se dizer que Ransho era o palhaço oficial da família. Sempre nos fazendo rir. Sempre gostava de me irritar desde nova. Ele e Rikuo eram dois anos mais velhos que eu.

- Esse é meu irmão mais velho, Ransho. Não se importe com a falta de cortesia dele. Ele sempre é assim. - eu disse.

- Muito prazer, Yumi-san, Motoko-san e Ransho-san. Sou Shizuka Kakyou. Obrigada por me receberem no feriado. Espero não estar atrapalhando nada. - falou com um tom um tanto estranho. Senti que mais tarde, ouviria um bom sermão de Kakyou.

Os olhos da minha mãe começaram a brilhar com mais intensidade e falou:

- Que garoto educado e que voz bonita! Não se preocupe. Estamos muito felizes de recebê-lo aqui.

- E a senhora está bem? <....> comentou que a senhora estava um tanto quanto doente. - perguntou Kakyou.

- Claro que sim. Tenho uma saúde de ferro. Um simples resfriado não pode me derrubar. - respondeu.

A conversa estava muito agradável enquanto andávamos lentamente pelo hall da casa, até que a voz rouca de meu pai alcançou meus ouvidos.

- <....>, não esqueceu-se de falar com seu pai?

- Ah. Olá pai. Quanto tempo. Como anda sua saúde?

Ele se levantou do kotatsu da sala de estar e aproximou-se de mim devagar, com o rosto rígido. Eu odiava aquilo. Aquela face de desaprovação. E o rosto com traços fortes que ele tinha só piorava meu nervosismo. Apesar de não demonstrar, eu sentia medo. Eu temia a desaprovação das pessoas. E meu pai era especialista em fazer isso.

- Finalmente voltou para casa, filha. Quem sabe você não pense em ficar aqui após o feriado, decida voltar a viver na sua verdadeira casa.

O nervosismo foi substituído pela raiva. Era outra coisa que eu odiava. Não aguentava mais essa perseguição com minhas próprias escolhas. Abri a boca para responder, sentindo meu rosto avermelhar.

- Que tal mostrarmos o quarto de Kakyou? - disse minha mãe, provavelmente querendo evitar uma briga familiar.

- Claro, claro... - me virei para seguir minha mãe e Kakyou.

- Quem é esse? - perguntou meu pai com um tom de leve desprezo, assim que percebeu a presença de Kakyou.

Virei-me para responder a meu pai.

- Esse é Kakyou, um amigo.

- Não sabia que tinha um namorado, <....>. - falou meu pai, com um pequeno riso saindo dos lábios rígidos. Mesmo rígido, meu pai ainda possuía o senso de humor característico da família.

- Okay. A família inteira está fazendo complô contra mim. - falei rindo, voltando ao caminho para os quartos.

- Você consegue instalá-lo, não é? Tenho que acabar de fazer o jantar. - perguntou minha mãe.

- Claro. - respondi, enquanto já subia as escadas.

- Cuidado, <....>. Não faça nada que eu não faria. - falou Ransho.

Mandei um olhar irritado para ele. Já no corredor do segundo andar, percebi que Kakyou estava com a mão no rosto, cobrindo a boca.

- Está rindo do que? - perguntei.

- Nada. Absolutamente nada. - respondeu, rindo mais ainda.

- Hunf. Babaca. - falei, enquanto abria a porta do quarto de hóspedes.

Ele entrou e colocou as malas no canto do quarto.

- O futon, o travesseiro e os lençóis estão aqui. - e mostrei o armário. - O banheiro fica no fim do corredor. Acho que é isso... Bem , também tem...

- <....>! - ele me interrompeu.

- Ah, desculpe-me. Fale.

- Você não havia avisado a seus pais que eu viria?

- Bem... Na verdade, não. Se eu tivesse avisado, acho que minha mãe teria aparecido na estação com toda a família, levantando faixas e balões. Para você ter ideia, minha mãe é uma versão mais velha da Aiko. - falei, rindo e tentando disfarçar o verdadeiro motivo.

Kakyou não parecia convencido. Talvez ele soubesse que eu não a impediria de fazer uma recepção extravagante, mesmo que isso realmente não me agradasse.

- <....>, isso tem a ver com seu pai?

- O que acontece é que ele não iria aceitar a visita, minha mãe tentaria convencê-lo e eles acabariam discutindo. Não queria que eles discutissem, sendo que minha mãe está tão frágil.

Sentei-me no chão e fiquei olhando para baixo. Kakyou  sentou-se ao meu lado.

- Até entendo sua intenção. Mas omitir não piora a reação do seu pai, não? Além do mais... Você não pensou como eu me sentiria? Assim sinto que estou atrapalhando mais ainda o feriado da sua família.

- Na verdade, não. Agora que você está aqui, meu pai não vai reclamar de jeito nenhum. Ele é um pouco estranho quanto a isso. E, como eu disse, você não vai estar atrapalhando. Minha mãe fica alegre com uma visita e vai te engordar com tanta comida que ela vai fazer para você. Ransho vai te usar como alvo para provocações. Aiko irá brincar de detetive e descobrirá tudo sobre você. Vai ser divertido...

A face de Kakyou parecia ter congelado diante dos desafios que serão lhe impostos durante o feriado. Eu diria que a face dele expressava o desejo profundo e cada vez maior de sair correndo daquela casa.

- Achava que Ransho estava mentindo quando falou que essa família era louca? Boa sorte. Vai precisar. - levantei-me e estendi a mão para ele, sorrindo.

Ele retribui o sorriso e segurou minha mão para se levantar. Então ajudei ele a se instalar no quarto, enquanto mostrava o resto da casa para ele. Deixei minhas coisas no quarto que até o colegial eu divida com Motoko. Chegamos a cozinha onde minha mãe trabalhava arduamente, tendo como ajudante uma desastrada Motoko.

- Deixa que eu corto isso para você, Motoko. Nós duas sabemos que você não tem talento para isso. - falei, pegando a faca da mão dela.

- Eu sempre digo isso para a mamãe, mas ela sempre me força a ajudá-la na comida. - falou Motoko, sentando-se numa cadeira, ao lado de Kakyou.

- Que nada. Você tem que treinar para quando casar. Quem vai casar com uma menina que nem sabe fazer uma simples sopa? Sua irmã, ao contrário de você, já está prontinha para casar. - falou minha mãe.

Desconcertada e envergonhada com o comentário, quase cortei um de meus dedos.

- Não é bem assim. Além do mais... Não acredito que possa haver alguém nesse mundo que queira casar comigo... - falei, voltando a olhar para os legumes.

Minha mãe permaneceu  olhando para mim, analisando-me. Então sorriu, como se finalmente tivesse entendido alguma coisa. Tenho até medo do que ela deve ter entendido. Quando falam que instinto de mãe é poderoso, não estão realmente brincando.

- Ainda acho que <....> seria a esposa perfeita. Tem um talento genuíno na cozinha. Não concorda, Shizuka-san? - perguntou minha mãe, sorrindo.

- Concordo plenamente, Yumi-san. O chocolate quente da <....> também é maravilhoso. - falou Kakyou.

- Como assim? V-você já p-provou do chocolate da onee-sama? - falou Motoko, vagarosamente.

- S-sim. Algum problema? - perguntou Kakyou, um pouco receoso. E com razão. Estou prevendo algo não muito bom vindo de Motoko.

- Como isso é possível? - falou, espantada. - <....> nunca faz chocolate quente para as pessoas. Apenas para as pessoas mais importantes para ela! Aiko-sama demorou anos para conseguir prová-lo! Yuki-san também. Até os gêmeos e eu temos dificuldade para prová-lo às vezes. Nossa, você deve ser alguém muito especial mesmo...

- Motoko, por que você não vai esperar lá na sala com o pai? Vamos, vamos. Sem mais ataques. - falei, empurrando ela para fora da cozinha.

- Eu ainda vou tirar isso a limpo. Tenho muitas coisas para perguntar para você ainda, Shizuka! - falou Motoko.

Kakyou parecia achar graça disso. Ele sempre parece achar graça dos momentos em que as pessoas me deixam constrangida ou envergonhada. Realmente um babaca.

- Filha, querida, já está quase tudo pronto. Que tal você arrumar a mesa?

- Claro, mãe. Vou pegar os pratos.

Logo a mesa estava arrumada, a comida estava servida e todos estavam na mesa, saboreando a comida.

- Então, Shizuka... - falou meu pai em meio ao jantar. - Trabalha com o que?

- Na verdade, Amamiya-san... - falou Kakyou. - eu sou um editor de livros.

Meu pai curvou a boca em desagrado. Amamiya Akira, um homem realmente difícil de se lidar. Pavio curto, antiquado, teimoso, impaciente. Apenas mais uma figura da família Amamiya. Nada fora do normal. Mesmo tendo tantas falhas, tenho orgulho dele. É tão comum ver pessoas que mentem e escondem suas verdadeiras faces que agradeço pelo meu pai ser quem ele realmente é, sem ocultar nada. Mas não quer dizer que vou desistir de tentar fazê-lo aceitar minhas escolhas. Tudo é uma questão de princípios.

Logo todos terminaram de comer. Agradecemos a comida e foi feita, após várias discussões, a fila para tomar banho. Eu estava em casa, não havia dúvidas. E o aconchego das vozes e presenças daqueles que tanto amam só me acomodaram mais. Dormi docemente na cama que eu costumava usar, apenas imaginando que aventurar me esperavam ao acordar.

~*

ALELUIA! ALELUIA! Finalmente saiu o oitavo capítulo de Apenas Juntos. Espero que gostem. 
Dedicado a Yuu-chan. <3

Vocabulário
Nii-san - Pelo pé da letra... "Irmão".
Shizuka Kakyou - Gostaria de lembrá-los que a história passa-se no Japão. E, no Japão, primeiro vem o sobrenome e depois o nome. Ou seja, o sobrenome de Kakyou  é Shizuka. 
Ano-Novo - O Ano-Novo é um feriado muito importante para os japoneses. E eles comemoram esse feriado até o terceiro dia do ano. É um dos únicos feriados em que eles soltam seu jeito festeiro. 
Tadaima - Expressão usada quando se chega em casa. Equivalente a "Cheguei!".
Onee-sama - Pelo pé da letra... "Irmã".
-chan - Pronome de tratamento utilizado como sufixo. Demonstra informalidade e intimidade.
Kotatsu - Consiste em um tipo de mesa baixa (para que caibam as pernas das pessoas sentadas À volta) com um pequeno aquecedor embutido no centro, voltado para baixo, e um cobertor grosso "lacrando" a mesa pelos quatro lados para impedir que o ar quente escape.
-san - Pronome de tratamento utilizado como sufixo. Equivalente ao senhor/senhora/senhorita.
-sama - Uma foma muito educada de se referir a outras pessoas. Normalmente usado para referir-se a pessoas da realeza, imperadores.

Até o próximo post! (:

sábado, 25 de dezembro de 2010

Quando a Neve Derrete ~~ {1 ano}

É tempo de festas. E sabe por que? Natal? Ao contrário, meu amigo. Ontem, dia 24 de dezembro, nosso querido "Quando a Neve Derrete..." fez 1 ano de existência. Sinceramente, isso é realmente um milagre. Eu nunca mantive um blog por tanto tempo e fico orgulhosa de ter criado e mantido o "Quando a Neve Derrete...". Mesmo tendo poucas pessoas que visitam, eu gosto muito desse meu humilde blog e já o considero um sucesso maior do que um blog badalado onde sempre tem gente visitando.

Eu comecei esse blog sem muito objetivo traçado e eu temia desde o início que o abandonasse, mas o tempo foi passando e eu me apegava a ele. Não importava o quão idiota seja meus pensamentos e sentimentos, meu blog não me rejeita. Ele acabou sendo um confidente e se tornou um elo com outras pessoas, fazendo me expressar melhor com ele. 

Em Fevereiro de 2010, recebi um presente que hoje alegra meus dias. Eu ficava tão entusiasmada com o blog que eu queria melhorá-lo, trazer coisas diferentes e divertidas para meus poucos leitores. Houve o nascimento do meu primeiro romance sério: Apenas Juntos. Se não fosse o blog, eu talvez nunca tivesse coragem de criar uma história dessas. Hoje, eu me divirto tendo que quebrar a cabeça com nomes de personagens, personalidades de personagens, clímax do capítulo, entre outras coisas. Além de poder criar os caras perfeitos e fazer os leitores ficarem furiosos com a enrolação do casal principal. 

Tornou-se cada vez mais divertido passar horas e horas pesquisando para os posts do blog e poder correr atrás de ferramentas para deixá-lo mais atraente e chamativo. Foi um trabalho duro, mas que valeu muito a pena. "Quando a Neve Derrete..." agora é um importante elemento do meu dia-a-dia. Que o próximo ano seja repleto de posts para meu querido blog. Parabéns pelo seu primeiro aninho, meu lindo. Eu te amo!

Até o próximo post! (: 

domingo, 26 de setembro de 2010

Capítulo 7 - ~* Apenas Juntos *~

Capítulo 7 - Natal.

A faculdade estava a todo vapor, e, novamente, Kakyou estava em frente a portão, me esperando para nosso almoço diário. Convidamos Yuki e Aiko para almoçar conosco.

Nosso almoço se desenrolava normalmente. Conversávamos, brincávamos, etc. Parece que o incidente da escada não tinha atrapalhado minha relação com Kakyou. Ele estava agindo como sempre: observador e com suas poucas palavras. Eu realmente gostava quando ele se deixava levar e ficava solto, mas eu também adorava esse seu jeito quieto e misterioso de ser. Talvez tenha sido o que mais me atraiu nele desde o começo. Aquele silêncio indecifrável.

Em meio nosso  bate-papo, Aiko teve uma ideia e quis expô-la:

- Pois é. O Natal é depois de amanhã. Que tal nos reunirmos lá em casa?

- Não. - Yuki respondeu rapidamente.

- Você se lembra o que aconteceu da última vez? E também vamos ter aula depois de amanhã. - falei.

- O que houve da última vez? - perguntou Kakyou.

- Ela quis fazer um Natal "tradicional" e decidiu encher a casa com "pisca-piscas". E quando eu digo encheu, ela LITERALMENTE encheu! - comecei.

- Então quando ela tentou ligar todos, causou um "blecaute" no bairro inteiro. - completou Yuki.

- E tivemos que ir na casa de todos os vizinhos para nos desculpar, enquanto ela estava vestida de Papai Noel. Com barba e tudo.

- Ah, pelo menos, nada pegou fogo... - falou Aiko. - Eu estava pensando em apenas nos juntarmos e comermos um nabe ou algo assim, enquanto trocamos presentes. Podemos fazer isso após a aula. Vamos...  - concluiu manhosa.

- Não sei, Aiko... Não vejo nenhum motivo para comemorar o Natal... - falei.

- Vamos, <....>-chan. Você só vai para a casa dos seus pais no dia 30 mesmo, não precisa arrumar as malas tão cedo...

Yuki e Kakyou olharam sério para mim, porém não exporão seus pensamentos. Aiko parecia um pouco arrependida por ter falado aquilo.

- Então vamos fazer logo essa festa! - falei animada.

Yuki e Kakyou se olharam parecendo hesitantes quanto a festa. Às vezes, parecia-me que os dois não se davam muito bem, mas parece que havia algumas horas em que se tornavam uma ótima dupla quando se tratava das "maluquices" de Aiko.

- Eu estarei trabalhando no dia 24, mas acho que consigo ir de noite. - falou Kakyou.

- Acho que posso ir também... - falou Yuki vagamente.

- Então está combinado! Todos na minha casa no dia 24! - falou Aiko, animada e estendendo a mão com os dedos em "V". - Podemos fazer um "amigo oculto"! Sortearemos os nomes amanhã.

Acabamos logo nosso almoço e pedimos a conta. Dividimos a conta por quatro e cada um pagou sua parte. Quando saímos do restaurante lembrei que precisava de um livro da biblioteca para estudar para a próxima prova.

- Ah, gente! Tenho que ir até a biblioteca. Desculpe-me. - falei, já me virando para o lado oposto.

- Vai lá! Tem que tirar uma boa nota nessa prova, hein! - disse Aiko.

- É. Podem ir. Depois eu volto para casa sozinha.

- Posso te acompanhar até a faculdade, já que é caminho. - falou Kakyou.

- Então tchau, <....>-chan! - falou Aiko já andando.

- Até amanhã! - disse Yuki, acompanhando-a.

Permanecemos em silêncio enquanto andávamos em direção a faculdade. Até que Kakyou decidiu abrir a boca:

- Então você vai para a casa de seus pais no Ano novo...

Ele não estava realmente perguntando, mas era como se quisesse confirmar o fato.

- Sim! Tenho que visitar a família às vezes, não acha? - falei rindo.

- Acho que sim... - respondeu distraído.

Senti-me um pouco incomodada com seu tom vago. Parece que havia algo de errado novamente.

- E você? Vai visitar sua família? - perguntei.

- Não. Meus pais morreram há muito tempo. Vou ficar por aqui, mesmo.

Quando escutei a resposta, arrependir-me imediatamente por ter perguntado. Ele havia ficado sério novamente.

- M-mas você não tem nenhum parente que possa visitar ou algo assim?

- Não. Eu geralmente passo os feriados sozinho mesmo. Estou acostumado.

Fiquei olhando para ele. Ele realmente parecia não estar se importando muito, mas o tempo me ensinou que Kakyou nunca mostra o que realmente pensa ou sente. Ou seja, talvez ele se sentisse solitário nesse exato momento.

Chegamos na faculdade e fomos até a biblioteca. O silêncio permanecia entre nós. Vários pensamentos rodavam minha cabeça.

- Er.. O que... O que houve exatamente com seus pais? - falei enquanto passava o livro de que precisava para a bibliotecária.

Ele olhou serenamente para mim e falou:

- Essa é uma história para outra hora...

- Ah... Não, tudo bem... - falei envergonhada.

Ele mostrou um pequeno sorriso. Saímos da biblioteca e da faculdade.

- Eu vou para esse lado. - ele apontou o lado oposto ao meu.

- Sim! Até amanhã! - falei me virando para o outro lado.

Dei alguns passos e parei. "É isso!" Virei-me e gritei:

- KAKYOU! - ele se virou, curioso. Corri até ele.

- Sim?

- Er... Eu queria saber se... se... se você não quer passar o Ano novo comigo, na casa de meus pais?

Ele pareceu espantado com a proposta.

- Não, <....>. Não quero atrapalhar sua reunião de família.

- Não vai atrapalhar! -falei afobada. - Minha mãe gosta de visitas, mesmo ela estando um pouco doente recentemente, meus irmãos também não se incomodam. Se quiser, podemos ir de trem. Uma viagem de trem até Sapporo costuma ser bem agradável, mesmo lá sendo bem frio. E... e... eu gostaria mesmo que você fosse.

Ele sorriu e falou:

- Se você acha que não vou atrapalhar, acho que posso te acompanhar... - falou um pouco constrangido com todo meu convite espalhafatoso.

- Sério? Realmente ficaria muito feliz se você passasse o feriado comigo e minha família.

- Espero não atrapalhar mesmo. Vou indo, então. Depois me fala sobre os detalhes da viagem.

- Sim! - respondi mais alegre do que o costume. - Até amanhã!

- Até! - falou.

Voltei ao caminho de casa.

Os dias passaram e finalmente chegou o dia 24. Tinha decidido dormir na casa de Aiko, então acompanhei-a até sua casa. Quando chegamos, falei:

- Oh, e não é que você realmente não enfeitou esse ano...

- Sim. Não tive tempo também... Eu queria ter colocado meus milhões de laços vermelhos e  verdes. Será que ainda dá tempo? - falou, com os olhos brilhando de êxtase.

- Não, Aiko. Está ótimo assim.

Aiko fez uma autêntica "cara de cachorro abandonado".

- Já disse que não. Vamos logo adiantar a comida.

Começamos a cortar os vários legumes para o nabe. Logo que tudo estava adiantado, fui tomar banho. Após o banho, voltei para a cozinha com os cabelos ainda presos e as pontas levemente molhadas. Aiko pulou em cima de mim, inexplicavelmente.

- <....>-chan! Você fica tão linda com o cabelo amarrado.

- Aiko, eu não estou respirando...

- Tão linda...

Enquanto eu estava sendo assassinada pela minha melhor amiga, a campainha tocou.

- Já vou! - disse Aiko, após ter me libertado de seu abraço de urso.

Segui-la até a porta. Quando adentrei a área de entrada encontrei Yuki tirando os sapatos. Parei, surpresa. Ele estava diferente naquele dia. Seus cabelos não estavam mais presos naquele rígido rabo-de-cavalo, mas sim soltos caindo-lhes sobre as costas, tão suaves dando-lhe um ar de graça.

- Feliz Natal, <....>-san.

- Ah... Feliz Natal, Yuki! Você soltou o cabelo hoje. Caiu muito bem em você.

- Obrigado. Você fica muito bem com seu cabelo preso também.

-Ah, isso. Só amarrei para tomar banho. - falei, colocando a mão no cabelo para desamarrá-lo.

Ele parou minha ação com sua mão e falou:

- Por favor, não tire.

Não consegui disser não àqueles olhos penetrantes.

- Eu vivo dizendo que ela deveria prender mais o cabelo. Mas ela não me escuta. - Aiko fala, andando em direção a cozinha. - Eu poderia fazer tantas coisas nesse cabelão dela... Mas ela se recusa.

- Eu não gostaria de ter meu cabelo queimado...

- Para sua informação, nunca botei fogo no cabelo de ninguém.

- Sei. E aquela vez... - comecei.

- Aquilo não conta. - respondeu Aiko, emburrada.

Eu e Yuki rimos.

- Tem algo em que eu possa ajudar? - ele perguntou.

- Não precisa. Já adiantamos tudo. Só temos que esperar o bonitão chegar. - respondeu Aiko. - Acho que vou tomar banho. Sintam-se à vontade.

Aiko se retirou da sala e sentei-me no kotatsu da sala e liguei a televisão, sem prestar atenção no que estava passando. Yuki sentou-se ao meu lado, tirou um pacote vermelho de dentro do casaco e então colocou-o ao lado do meu presente. Observei o embrulho e perguntei, curiosa:

- Quem você tirou?

- Não era para ser segredo? - respondeu, rindo.

- Ah, vamos lá. Conta!

Yuki abriu a boca para, provavelmente, dizer que não iria contar, mas a campainha tocou antes dele poder falar algo.

- Salvo pelo congo.

Ele sorriu satisfeito, enquanto eu me levantava para atender a porta. Abri a porta e me deparei com Kakyou batendo levemente os próprios ombros, tirando a neve que havia se acumulado ali.

- Nossa! Está nevando? Yuki chegou limpinho.

- Começou agora. Por sorte, eu já estava aqui perto.

- Hum. - respondi vagamente.

- <....>, acorda! Sabe aqui está um pouco frio, então eu posso entrar?

- Ah, sim. - respondi, ainda distraída - AH! Sim, sim. Pode entrar, por favor.

Kakyou adentrou a casa e tirou os sapatos. Levei-o até a sala onde iríamos jantar e nos sentamos no kotatsu, junto de Yuki.

- Feliz Natal, Nayukizhi-san.

- Feliz Natal, Kakyou-san.

De repente, manteve-se um silêncio no recinto. E, como eu sabia que não conseguiria quebrá-lo de modo satisfatório, apenas contribuí para que ele se alastrasse. Passaram-se alguns minutos e Aiko apareceu do corredor.

- Que clima de velório é esse? Vamos fazer esta festa bombar!

- Não pense em fazer nenhuma bobagem, Aiko. - falei, séria enquanto agradecia aos céus por ela ter aparecido.

- Mas então o que faremos? Ver filmes? Eu tenho uns de terror que são ótimos. - falou, Aiko já ficando entusiasmada.

- Não! - falei imediatamente.

- Tá bom. Sem filmes. Que tal MahJong?

- É uma boa ideia. - falou Kakyou.

- Então será Mahjong! - falei.

Aiko foi pegar o Mahjong e começamos a jogar. O tempo foi passando, e os pontos subiam e desciam. Como sempre, fiquei a com menos pontos, enquanto o Yuki ficou com mais. Logo após ele veio Kakyou e Aiko, respectivamente. Após o jogo, guardamos as pedras e montamos a mesa para comermos.

- Então você vai passar o ano novo na casa da <....>-san? - perguntou Yuki para Kakyou em meio ao jantar.

- Sério? - falou Aiko, surpresa. - O bonitão terá que passar pelo interrogatório da Motoko-san...

- Motoko-san? Quem é? Sua mãe? - perguntou Kakyou.

- Não. É minha irmã mais nova. Ela ainda está no colegial, mas sempre agiu como a super-protetora. - respondi, com vergonha.

- Também... Com uma irmã mais velha assim... - falou Aiko.

- Realmente. Ainda não acredito nessa história de que você se perdeu no primeiro dia de aula do colegial. - perguntou Kakyou, se divertindo.

- Não acredito que você fez isso. - falou Kakyou, surpreso.

- Qual é? Aiko teve problemas com o caminho da escola até o fim do ano. - falei.

Todos riram, até Aiko. Quando nós quatro nos reuníamos era como se o mundo perdesse todos os problemas e tudo estivesse na inteira paz. Após várias histórias antigas e claro, várias risadas, recolhemos a louça para lavar.

- Que saudade da comida da Yumi-san. Eu adorava a comida dela. - falou Aiko, enquanto guardava a louça.

- Tanto que você jantava lá em casa quase todas as noites.- falei.

- Então Yumi-san é sua mãe. - falou Kakyou.

- Sim. Dessa vez é minha mãe. Minha mãe sempre gostou de cozinhar então ela ficava extremamente animada com as idas costumeiras de Aiko.

- Estou ansioso para provar também.

Voltamos a sala para trocar os presentes, era quase meia-noite.

- Agora é hora de abrir os presentes! - gritou Aiko ao sentarmos no kotatsu.

Então correu para o corredor, sumindo em um dos quartos. Em seguida, voltou com um grande pacote azul.

- Podemos começar! Humm, comece você, Yuki. - disse Aiko, animada.

- Por que eu? - perguntou Yuki, indiferente.

- Porque eu disse, oras.

- Ai, ai... Nunca recebo uma resposta decente... - falou Yuki, enquanto pegava um pacote vermelho que estava ao lado do meu. - Tá, o que eu faço agora? Apenas falo quem é?

- Ah, você poderia dar dicas para descobrirmos quem é a pessoa... - respondeu Aiko.

- Só entregar para a pessoa? Pode deixar. - respondeu Yuki, ignorando Aiko. - Aqui, <....>-san.

E entregou-me o pacote, enquanto Aiko o caluniava em silêncio, apenas mexendo os lábios.

- Posso abrir? - perguntei.

- Claro.

Abri o presente e fiquei surpresa. Era um livro sobre contos japoneses que vivia admirando na livraria, mas nunca tive coragem de comprá-lo.

- Muito obrigada, Yuki. Obrigada mesmo.

- Não há de quê.

- Vamos, sem enrolação. Vai <....>-chan. Sua vez, sua vez.

Peguei uma caixa retangular que estava guardada ao lado da televisão.

- Bem, eu tirei o Kakyou. - e então entreguei o presente para ele.

- Nossa, um cachecol.- falou ele. - Obrigado. Você que costurou?

- Não, é comprado mesmo. Até pensei em fazer mas não daria tempo de costurar tudo. Desculpe-me. Mesmo assim, pensei que seria útil, afinal nunca o vi com um cachecol.

- Vamos, vamos. - falou Aiko, apressada.

- Que pressa. Calma! - falei.

- Quero logo entregar meu presente.

- Então vai ser logo, porque eu tirei você. Aqui, Aiko-san. - falou Kakyou, enquanto tirava uma pequena caixinha do bolso.

- Ah, muito obrigada. - então abriu. - Que lindo! É um broche.

E mostrou um broche com uma lua prateada e uma pequena estrela da mesma cor brilhante e alguns tons de violeta.

- Você realmente tem gosto, bonitão. Muito obrigada. Agora é minha vez! - e empurrou o grande pacote para o Yuki.

- Devo ter medo? - falou Yuki, encarando o pacote.

- Ah, você vai adorar. Tenho certeza que sim. - respondeu Aiko, com olhos brilhando.

Yuki abriu o grande pacote com o receio estampado no rosto. Porém, ao terminar de abrir, foi substituído pelo horror. O presente era uma réplica mais exagerada do chapéu de minha avó. Eu e Kakyou caímos na risada.

- Eu percebi o quanto você tinha gostado daquele outro e encomendei um parecido. - falou Aiko que também estava morrendo de rir.

- Ah... Obrigado... - falou Yuki vagamente.

- Calma, calma. Ainda tem mais. Vê o que tem debaixo do chapéu. - disse Aiko.

Yuki hesitou antes de tocar no chapéu, mas tomou coragem e retirou-o. E o que encontrou era um porta-retrato com uma foto tirada na noite do filme de terror, onde tinha todos nós em volta de Yuki que usava o chapéu. Ele sorriu ao ver a foto.

- Obrigado, Aiko. Foi muito gentil de sua parte.

- De nada. Sabia que ia gostar. Mas coloca o chapéu para vermos como fica. - falou Aiko, colocando o chapéu na cabeça de Yuki.

A noite continuou caminhando normalmente. Logo Yuki e Kakyou decidiram ir. Mas ao abrirmos a porta havia uma tempestade de neve, fazendo com que fosse impossível caminhar naquela selva de neve.

- Que tal dormirem aqui? <....>-chan disse que não queria dormir sozinha hoje. Ela disse que queria braços fortes abrançando-a nesta noite. - falou Aiko.

- AIKOOO!

Depois de conversarmos, decidimos que os rapazes dormiriam juntos no quarto de hóspedes e eu dormiria com Aiko no quarto dela. Despedimos-nos e fomos todos dormir. E assim foi nossa não tão calma noite de Natal.

~*

Finalmente consegui. Desculpe-me a demora, mas fiz o possível para sair um capítulo legal. E com o meu jeitinho típico "Apenas Juntos". Espero que gostem. Talvez eu demore com o próximo capítulo, pois ele é mais complicado e cheio detalhes, principalmente com novos personagens. Esperem, por favor.

Vocabulário
Natal - Lembrem-se que a história passa-se no Japão, e lá não se comemora o Natal em sua essência. É apenas capitalismo, no caso da comemoração improvisada.
Ano Novo - Geralmente comemora-se o Ano Novo durante a passagem e os três primeiros dias do Ano.
Nabe - é de comer e é japonês.
kotatsu - Consiste em um tipo de mesa baixa (para que caibam as pernas das pessoas sentadas À volta) com um pequeno aquecedor embutido no centro, voltado para baixo, e um cobertor grosso "lacrando" a mesa pelos quatro lados para impedir que o ar quente escape.
-san - Pronome de tratamento utilizado como sufixo. Equivalente ao senhor/senhora/senhorita.
-chan - Pronome de tratamento utilizado como sufixo. Demonstra informalidade e intimidade.
MahJong - Jogo de mesa de origem chinesa que foi exportado, a partir de 1920, para o resto do mundo e principalmente para o ocidente.

Até o próximo post! (:

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Capítulo 6 - ~* Apenas Juntos *~

Capítulo 6 - Amigos.

O outono se foi e o frio inverno havia adentrado nossas cidades, nossas ruas, nossas casas, nossos corpos. As coisas continuaram a fluir normalmente: eu lutando para fazer os trabalhos da faculdade, Aiko me perturbando durante os intervalos, Yuki sempre estava por perto para dar um puxão de orelha em uma das duas e Kakyou continuava a me buscar para almoçarmos juntos. Algumas vezes até almoçamos os quatro juntos. Sempre era muito divertido, já que Aiko ficava fazendo suas várias piadinhas com Yuki e Kakyou. Na verdade, acho que eles não gostavam muito já que eram a piada.

Era um Domingo, e estávamos todos na minha casa para assistir um filme enquanto nos aquecíamos num kotatsu e tomávamos chocolate quente. Yuki e Kakyou estavam sentados no kotatsu, ambos quietos e absortos em seus próprios pensamentos, Aiko estava mexendo freneticamente no monte de filmes que havia trazido, indecisa, e eu estava na cozinha cortando o chocolate. Até que o telefone toca.

- <....>-chan! TELEFOOONE! - escutei Aiko gritando.

Entrei na sala de estar, esfregando uma mão contra a outra, por causa do frio e falei:

-Que incrível! Você não atendeu o telefone por conta própria...

- Estou ocupada tentando escolher algum filme. - disse, com um tom de desespero.

Atendi o telefone, como sempre. E a primeira coisa que ouvi foi a voz rouca de meu pai.

- <....>, filha.

- Ah, olá, pai. - senti os olhares de Aiko e Yuki nas minhas costas.

- Faz tempo que não liga, já se esqueceu de sua mãe que está doente? - falou, rude.

- Não. Apenas estou ocupada com a faculdade, sabe?

- Hunf! - falou meu pai, com um pouco de desgosto. - Ainda está fazendo o mesmo curso?

- Pai, espero que não tenha ligado apenas para isso. - falei com a voz alterada. - De qualquer modo, como vai a mamãe?

- Vai vem, vai bem. Anda um pouco indisposta com o clima frio, mas está bem.

Permaneceu o silêncio entre nós. Fazia anos que eu não tinha uma conversa decente com meu pai, e isso não mudaria hoje.

- Bem, vou cuidar da sua mãe.

- Mande um abraço para ela por mim.

- Claro, claro. - e desligou.

Virei-me para as pessoas na sala e todos os olhares se concentravam em mim, mesmo Kakyou, que até então estava com o rosto apoiado na mão, havia posicionado as mão sobre a mesa e me observando, meio confuso. Tentei forçar um sorriso.

- Haha, é melhor eu acabar de fazer o chocolate. - voltei para a cozinha, tentando não demonstrar fraqueza pelo olhar.

Parei em frente ao balcão e respirei fundo. Meu pai nunca havia mostrado respeito quanto à minha escolha de curso e instituição. Fazer Letras em uma cidade pequena como essa foi como uma desonra para ele. Mas essa foi minha escolha, meu sonho. Eu queria me tornar uma escritora e nada iria me impedir. Algumas lágrimas escaparam e caíram sobre o balcão. Escutei alguém entrando pela porta da cozinha e tentei limpar meus olhos. Virei-me para encarar a pessoa, achando que era Aiko ou Kakyou, mas, para minha surpresa, era Yuki, com uma cara preocupada.

- <....>... - falou estendendo a mão, tentando me alcançar.

Deve ter sido a primeira vez que Yuki me chamou apenas de <....>, sem utilizar o -san. O que me deixou feliz, e me fez chorar ainda mais.

- Você me chamou de <....>! - falei, limpando as lágrimas de meu rosto.

- Isso é hora para chorar por um motivo desses...? - falou sorrindo, com um sorriso que poderia até transformar a mais sombria noite em dia. Ele se aproximou de mim, e me abraçou delicadamente com um dos seus braços, enquanto eu limpava meu rosto molhado.

Passamos um breve momento assim, até que afastei-me dele e falei:

- Então... Vamos fazer o chocolate, já que não vai ser feito sozinho!

Preparamos o chocolate quente rapidamente e entramos na sala com as bandejas. Aiko estava sentada no kotatsu, aparentemente conversando com Kakyou. Aproximei-me e entreguei uma xícara para cada, falando:

- Estejam preparados! Esse vai ser o melhor chocolate que vocês vão tomar na vida! Afinal foi feito por minha pessoa! - soltei uma risada.

- Tenho certeza que sim. - falou Kakyou, sorrindo serenamente.

- Claro que sim! <....>-chan é a melhor "fazedora" de chocolate quente do universoooo! - falou Aiko, entusiasmada.

Sentei-me no kotatsu, assim como Yuki.

- Então, já escolheu o filme?

Ela virou a cara, frustrada e falou:

- Eu não consegui decidir o filme então o bonitão escolheu.

- Nossa, Aiko! Precisa de ajuda até para escolher um filme. Daqui a pouco vai até precisar de ajuda para tomar banho. Não peça isso para mim, hein!

Todos nós começamos a rir, mesmo Aiko. De repente, pareceu que o clima havia se tornado mais leve e confortável. Parei para observar os três rindo. Era uma imagem bonita e suave, um momento precioso que estaria gravado em mim. Por um breve momento tive novamente uma nova vontade de chorar. Eu tenho amigos, amigos que me apoiam, que brigam, que riem, que brincam, simplesmente amigos. Involuntariamente, um sorriso se formou em meu rosto e fiquei apenas observando seus rostos alegres. Quando finalmente pararam de rir, observaram meu rosto sorridente.

- Hey, <....>-chan! Volta para a Terra que temos que ver um filme!

- Sim, realmente! E que filme vamos ver?

Kakyou me passou a capa. Minha cara foi indescritível. Era o filme Ursinhos Carinhosos: Viagem à Terra das Brincadeiras, um desenho infantil famoso na década passada no ocidente.

- Você está brincando comigo, né? Por acaso... Por que diabos você trouxe o filme dos Ursinhos Carinhosos, Aiko? E por que você escolheu logo esse filme, Kakyou?

Ele riu e ela corou um pouco.

- Ah, sei lá! Me dá isso aqui! - e pegou o dvd de minhas mãos.

- Deixe-me ver os filmes, então. - pedi.

Ela me passou a torre de filmes e comecei a procurar algum. Eram cada filme mais estranho que o outro: A história dos pés fedidos, Martha e a chuva de prata, Mãe de Alice no País das Maravilhas...

- Realmente. É cada filme estranho...

- Por que você acha que eu escolhi o dos Ursinhos Carinhosos?

- Ai, que legal! Tem até o filme do Digimon. Quando nova via direto na televisão.

- Eu sei, é um clássico. - disse Aiko.

- Ah. Já sei vamos ver esse! - e mostrei a capa.

Era um filme de terror intitulado Os fantasmas de Rue Madeline. Os três levantaram uma das sombrancelhas e falaram em uníssono:

- Você vai ficar morrendo de medo.

- Vou, não! Eu juro!

- Sei, da última vez que vimos um filme de terror, você se escondeu debaixo do kotatsu. - falou Yuki.

- Como isso é possível? - perguntou Kakyou.

- Não queira saber! Acredite em mim. - respondeu Aiko.

- Ah! Daquela vez foi diferente! Vamos ver, vamos ver! Tenho certeza que não vai acontecer de novo.

- Okay, se você insiste tanto. - e Yuki colocou o dvd no aparelho.

O filme começou e ficamos observando as imagens em silêncio. Passava-se na França, século XVIII, e contava a história sobre uma rua escura que era assombrada pelos fantasmas das mulheres que foram queimadas há muitos e muitos anos atrás e que continuavam nesse plano para amaldiçoar e assombrar homens e qualquer pessoa que estivesse ligada a madeira ou fogo. Achei a história um pouco sem sentido, mas ainda assim era um filme assustador, com todos aqueles efeitos. Uma vez ou outra, pulava de susto fazendo com que chamasse a atenção dos demais, mas nada sério. Ainda.

Absorta em uma cena onde um fantasma estava correndo atrás de uma mulher que segurava uma tocha, senti algo passeando na minha perna.

- Aiko, pare de roçar minha perna. Este truque já é velho.

- Mas eu não estou roçando sua perna. - falou, com a sinceridade em seu olhos.

- AAAH! -gritei - É O FANTASMA! - e me levantei, desesperada.

Kakyou deitou-se no chão rindo como uma criança. Olhei para ele horrorizada, assim como Aiko e Yuki.

- Nossa! Foi TÃO engraçado! - falou, entre risos. - Eu não consigo respirar...

Ninguém conseguia reagir àquele ato tão brincalhão e tão maroto feito por Kakyou. Kakyou, o sério, o quieto, o pensativo... tinha me pregado uma peça. Ele parou de rir aos poucos e falou:

- Que foi? Posso me divertir também, não?

- Claro que pode... Mas foi muito maldoso! - falei, fingindo estar chateada.

- Ah, foi uma brincadeira, <....>. Você também faz brincadeiras... - ele se levantou e aproximou-se de mim.

- Sim, faço mesmo. - tirei a tiara que estava usando e coloquei na cabeça de Kakyou.

- Hey, isso não vale.

- Bonitão, olha para cá. - Aiko estava com o celular aberto, pronta para tirar uma foto e tirou.

Fomos ver a foto e mostrava ele usando a tiara e com a mão estendida, numa tentativa de tirar o celular de Aiko, enquanto eu estava atrás rindo. Kakyou mostrava uma cara zangada por causa da foto, mas eu sabia que ele estava se divertindo. Ele tirou a tiara da cabeça e colocou de volta na minha cabeça.

- Esse é seu lugar. - sorriu. - Pelo menos, não era o chapéu de sua avó.

- Ah, é mesmo. Ele. - corri até o quarto e peguei o chapéu. Porém, ao invés de colocar nele, preferi colocar em Yuki que de bom grado tirou uma foto com o penoso chapéu.

Esquecemos do filme e começamos a tirar fotos idiotas. Fiz uma maquiagem bem... índio na Aiko e ela começou a correr pela casa, batendo com a mão na boca. Parecíamos criança em dia de festa. O dia não poderia ter sido melhor, até conseguimos deixar Kakyou e Yuki mais soltos. Sim, essa é uma vitória da qual vou me orgulhar por toda eternidade.

Quando o Sol começava a se pôr, Aiko e Yuki de despediram de nós e se retiraram. Estava eu e Kakyou conversando em frente a minha casa.

- É sério! - falou, Kakyou. - Se um dia você mostrar aquelas fotos para alguém, eu vou negar piamente que isso nunca aconteceu e que é apenas uma montagem estúpida... Não! Vou até negar que te conheço!

- Pode deixar, não irei mostrar para ninguém. - falei, rindo. - Ah, olha! - apontei para o céu, acima de nós.

Era um pequeno floco de neve, que estava sendo seguido por milhares e milhares de outros.

- A primeira neve da estação... - falou vagarosamente, como se estivesse maravilhado.

- Tão bonito...  - juntei as mãos e abri em forma de 'cuia' com a tentativa de capturar alguns flocos de neve. Então desviei meu olhos dos flocos de neve e olhei para Kakyou que parecia estar me observando por um bom tempo com um sorriso no rosto.

- Bem... Vou indo. -e desceu as escadas que davam para a calçada.

Desci junto, mas tropecei no penúltimo degrau e caí em cima de Kakyou que estava na minha frente. Acabamos deitados no chão.

- Nossa! Desculpe-me. Eu tropecei. - falei tentando me desculpar.

- Ai! Essa doeu... - falou e abriu os olhos que até então estavam fechados por causa da dor.

Oh, não! Aqueles olhos, aqueles belos olhos, como mel, e tão doce quanto, que desde a primeira que os vi me amaldiçoou e perseguiu, invadiu meu sonhos e perturbou minha vida, entretanto, mesmo assim, por que eu amava tanto aqueles olhos a ponto de nunca querer esquecer eles e poder admirá-los pelo resto dos dias? Tentei desviar dos olhos mas prestei atenção em seus lábios. Tão ternos e sedutores, agora arroxeados por causa do frio que nos atacava. Eu queria tê-los, possuí-los, saboreá-los, penetrar naquelas portas cheias de segredo... De repente, sem meu consentimento, meu corpo tentou diminuir a distância entre seus lábios e meus.

Quando estava a poucos centímetros de sua boca, percebi o que iria se desenrolar caso eu continuasse com aquilo. Meu Deus! Lá estava eu, na calçada, em frente a minha casa, em cima de um rapaz e quase beijando-o.

- Ah... er... Acho melhor eu sair de cima de você. Afinal, devo ser pesada. - tentei disfarçar.

Levantei-me , rindo e em seguida, ele fez o mesmo.

- Na verdade, não... - falou normalmente enquanto batia no casaco para tirar a neve. - Já vou indo, então. Até mais, <....>.

- Tchau, Kakyou. - acenei para suas costas.

Entrei em casa e fui tomar um belo de um banho.

"O que eu estava fazendo?"

~*

Creio que foi isso. Desculpe-me pela demora. Queria um capítulo espetacular que contivesse algum drama adicional a história. E tive a ideia de ela não se dar bem com o pai a pouco tempo. Ah, sim. Ando com alguns problemas. com a <....>. Acho que a personalidade dela está se tornando um pouco contraditória, não? Bem, deixe seus comentários sobre o que acharam desse capítulo. Sim! Conseguimos os comentários de volta, graças a Pocká.  Ainda temos que resolver algumas coisas mas vamos devagar. Além disso, não tenho o dom de descrever as cenas românticas ou qualquer outro tipo de cena, então ainda estou em fase iniciante quanto a isso. Dei o melhor de mim nesse capítulo e não acho que ficou tão ruim, pelo menos, eu gostei. Por favor, leia. Fiz com muito carinho

Vocabulário.
kotatsu - Consiste em um tipo de mesa baixa (para que caibam as pernas das pessoas sentadas À volta) com um pequeno aquecedor embutido no centro, voltado para baixo, e um cobertor grosso "lacrando" a mesa pelos quatro lados para impedir que o ar quente escape.
-san - Pronome de tratamento utilizado como sufixo. Equivalente ao senhor/senhora/senhorita.
-chan - Pronome de tratamento utilizado como sufixo. Demonstra informalidade e intimidade.
 Ursinhos Carinhosos: Viagem à Terra das Brincadeiras - Desenho infantil criado em 1981. Direitos autorais: Walt Disney Pictures.
A história dos pés fedidosMartha e a chuva de prataMãe de Alice no País das Maravilhas,Os fantasmas de Rue Madeline - Filmes fictícios, com nomes criados por mim.
Digimon - Anime que passou por muito tempo na televisão brasileira. Criado por Aki Maita. Direitos autorais: Bandai Co., Ltd.

Até o próximo post! (: